30/09/2024 às 14h21min - Atualizada em 30/09/2024 às 14h18min

Bolsa Família ou Bolsa "Bet"?

Vitor Nayron

Vitor Nayron

Economia

Vitor Nayron

As empresas de apostas esportivas estão apresentando um crescimento exponencial na quantidade e no apreço do público. Diante disso, uma informação divulgada pelo Banco Central do Brasil chama a atenção: beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bi com bets em agosto.

 

O programa Bolsa Família, que é consolidado e amplamente conhecido por todos os brasileiros, consiste justamente em um programa de transferência de renda para famílias de baixa renda com o objetivo de retirar da situação de pobreza e vulnerabilidade. Por característica, o programa é destinado exatamente para famílias cuja falta de renda é um problema. Logo, se a renda disponível necessária para viver é faltante, espera-se, então, que a utilização do dinheiro seja destinada para a compra de produtos de primeira necessidade ou afins. 

 

Entretanto, o que o Banco Central tem observado é justamente a destinação de uma parcela dos recursos do Bolsa Família para as apostas esportivas. Tal observação lança um olhar preocupante em torno da situação de famílias com baixa renda dentro do universo das apostas esportivas. 

 

Em agosto, cerca de 5 milhões (cerca de 17%)  dos beneficiários do Bolsa Família enviaram cerca de  3 bilhões de reais para as casas de apostas esportivas via PIX. O valor médio das apostas foi de R$ 100,00. O volume de R$ 3 bi corresponde a cerca de 20% do valor total despendido pelo governo para o programa. 

 

Ainda segundo o BC, expandindo o olhar para além dos beneficiários do programa Bolsa Família, o montante médio das apostas para pessoas acima de 60 anos é de R$ 3 mil. No que compete ao lucro das empresas, em média, as casas de apostas ficam com 15% dos valores e o restante é distribuído para os apostadores. 

 

Todas essas questões relacionadas às apostas esportivas apontam para algumas possíveis causas e consequências. O primeiro ponto é a busca das pessoas para conseguir dinheiro de forma rápida e fácil. Ao observar, por exemplo, a quantidade de pessoas que realizam algum tipo de investimento em renda variável, o número em março de 2024 foi de 5,1 milhões, ou seja, um número um pouco maior do que o número de beneficiários que apostam. 

 

Ao vislumbrar um dinheiro “rápido e fácil” a aposta esportiva se apresenta como uma opção “viável” para as pessoas. Além disso, tem a questão da facilidade em realizar as apostas tanto pelos valores quanto pela quantidade de opções de bets disponíveis no mercado. 

 

Dado o fluxo de recursos que são destinados para as bets, os impactos são diversos nos diferentes setores da economia. Quando os indivíduos utilizam da sua renda, que é um recurso limitado, para apostar, é um valor que poderia ser destinado para o consumo de alimentos, roupas ou serviços, por exemplo. 

 

A Confederação Nacional do Comércio (CNC) fez uma alerta que vai justamente nesse caminho. Segundo o estudo da CNC, as apostas esportivas podem diminuir em 117 bilhões de reais o faturamento do setor de comércio no ano. 

 

Os impactos possíveis das bets podem acontecer também na inadimplência dos indivíduos. As apostas geralmente desencadeiam o vício, ou seja, as pessoas tendem a colocar dinheiro, à medida que ganham tendem a colocar mais. Mas, o inverso também pode acontecer, ou seja, as pessoas apostam, perdem e ficam na ânsia de recuperar o dinheiro perdido e apostam cada vez mais. Se o volume de recurso destinado para essa finalidade é alto, sobra pouco recurso para as demais necessidades (dívidas, alimentação etc). 

 

Portanto, é importante ter clareza dos riscos associados às apostas esportivas. Primeiramente, não se trata de investimento. É algo arriscado, ou seja, possui uma incerteza absurda e impactos potenciais, que são desastrosos. 

 
Leia Também »