Foto: Agência Brasil
Na semana da Consciência Negra, somos convidados a refletir sobre as lutas históricas e cotidianas da população negra no Brasil. Entre essas lutas, destaca-se um ato de resiliência e resistência frequentemente esquecido nas pautas políticas e ideológicas: o empreendedorismo negro. Homens e mulheres negros empreendem para sustentar suas famílias, conquistar autonomia e romper com as barreiras impostas pelas desigualdades históricas. Contudo, esse caminho é permeado por desafios, incluindo discursos e representações que reforçam estereótipos, presentes na propaganda política, na educação e até mesmo nas campanhas que celebram o Dia da Consciência Negra.
Quando falamos de empreendedorismo negro, a mídia, que deveria ser um veículo de representação e empoderamento, muitas vezes perpetua visões distorcidas sobre a população negra. Um exemplo disso foi o programa "Esquenta!", de Regina Casé, onde os negros eram frequentemente retratados de maneira estereotipada. A narrativa do programa mostrava o negro como alguém sempre alegre, sambista ou envolvido em profissões alternativas, reduzindo toda uma população rica em diversidade e potência criativa a essas poucas facetas.
Ao restringir os negros a papéis como o do músico sorridente ou da trabalhadora doméstica resiliente, o programa reforçava um imaginário limitado. Embora focado na cultura popular, negligenciava as múltiplas formas de protagonismo negro, como cientistas, empreendedores e educadores que rompem com os padrões impostos. Essa representação superficial, replicada por escolas e governos, contribui para perpetuar as barreiras estruturais que dificultam o avanço da igualdade racial.
Empreendedorismo Negro: Um Recorte da Paraíba Na Paraíba, as mulheres negras vêm assumindo um protagonismo crescente no empreendedorismo. Atualmente, 57% delas são chefes de domicílio, conciliando essa árdua tarefa com a liderança de seus negócios. No entanto, os desafios permanecem: apenas 20,2% dos negócios de negros no estado são formalizados, o que limita o acesso a crédito e a outros benefícios essenciais para a expansão.
Outra barreira significativa é a educacional. Enquanto 17,5% das mulheres negras que empreendem possuem ensino superior completo ou incompleto, apenas 13,8% dos homens negras atingem esse nível de escolaridade. Esse capital intelectual impacta diretamente os tipos de negócios que podem ser criados e a capacidade de gerenciá-los de forma sustentável.
Já para os homens negros, o empreendedorismo ainda é, muitas vezes, uma luta pela sobrevivência. Cerca de 92,2% trabalham por conta própria, ou seja, menos de 10% são empregadores, o que reflete a ausência de políticas públicas eficazes voltadas para sua inclusão. Além disso, a informalidade é predominante no empreendedorismo negro na Paraíba, restringindo ainda mais o acesso a crédito e oportunidades de crescimento. Para os brancos temos 17,0% de brancos empregadores apesar de serem quase o dobro, isso também destaca que que a maioria dos empreendedores da Paraíba trabalham por conta própria.
Na paraíba 64,7% dos negócios são dos negros, sendo 67,3% composto por homens. Já em relação a formalização: 29,0% e 20,2% de brancos e negros respectivamente possuem CNPJ. Em relação a contribuição para a previdência temos 76,8% e 69,7% dos negros e brancos respectivamente.
A Educação e o Empreendedorismo como Atos de Resistência Parafraseando uma frase famosa de autor desconhecido: "Quando se nasce pobre, ser estudioso é o maior ato de rebeldia contra o sistema." Quando se nasce negro, estudar e empreender tornam-se atos ainda mais revolucionários. Cada jovem negro que escolhe o caminho da educação e do trabalho está rompendo com padrões que tentam limitá-lo.
Mais do que uma atividade econômica, o empreendedorismo negro é um ato de resistência. Cada negócio criado é uma resposta às desigualdades históricas e mais um passo rumo à transformação social. Contudo, para que essa transformação ocorra de maneira plena, é fundamental a implementação de políticas públicas que incentivem a formalização, amplie o acesso ao crédito e ofereçam capacitação técnica para o uso sustentável desses recursos. Assim, o empreendedorismo pode deixar de ser uma resposta à exclusão para se tornar uma via de inclusão.
Dois dias após o Dia da Consciência Negra, somos chamados à ação. É hora de olhar para o empreendedorismo negro como um motor de desenvolvimento econômico e social. Nesse contexto, governo, sociedade e setor privado têm papéis fundamentais na construção de um futuro mais inclusivo.
Que essa reflexão não se limite a um único dia, mas que se prolongue ao longo do ano. E que possamos, em breve, celebrar não apenas conquistas, mas também ações concretas para construir um país mais justo. Lembremos: empreender é um ato de resistência, mas também é uma forma poderosa de transformação.
Conheça o autor:
Cássio dos Anjos é doutorando em Economia Aplicada pelo PPGE/UFPB, possui mestrado em Matemática Pura e especialização em Educação Financeira, ambos pela Universidade Federal da Paraíba, além de licenciatura em Matemática pela Universidade de Pernambuco. É professor efetivo no Governo do Estado da Paraíba e na Prefeitura Municipal de João Pessoa, pesquisador do Laboratório de Inteligência Artificial e Macroeconomia Computacional (LABIMEC/UFPB) e Assessor Pedagógico da Sicredi Evolução. Com mais de uma década de experiência, trabalha com Tecnologia no Ensino de Matemática, Educação Financeira e Aprendizagem Baseada em Projetos. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Métodos Quantitativos Aplicados, e na área de Matemática, com ênfase em Álgebra. Atualmente, está se especializando em Economia do Setor Público e dos Recursos Naturais, utilizando ferramentas como Modelos de Equilíbrio Geral Computável e Econometria de Séries Temporais.