Confesso: não sou fã do Carnaval. Prefiro o sossego de casa às multidões festivas. Nunca participei dos famosos carnavais de Olinda ou Salvador. Contudo, independentemente das preferências pessoais, os números evidenciam que o Carnaval é um dos principais propulsores da economia brasileira.
Samba, frevo, maracatu e axé tomam conta das ruas, e há quem diga que o ano só começa depois da festa. Enquanto muitos postergam suas promessas de ano novo, enquanto isso alguns setores da economia seguem funcionando e são, na verdade, impulsionados pela movimentação de turistas e foliões. Quem foge das cidades carnavalescas aquece economias locais alternativas, enquanto quem busca a festa gera uma injeção massiva de capital nos destinos mais populares.
Não gastar com Carnaval é um erro econômico. Muita gente argumenta que os investimentos no Carnaval poderiam ser direcionados para áreas como saúde e educação. No entanto, essa visão ignora a dinâmica econômica da festividade. O Carnaval não é um gasto público sem retorno, mas um investimento altamente lucrativo, que gera empregos e fortalece setores estratégicos da economia.
Impacto econômico no Brasil
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o Carnaval de 2025 deve movimentar R$ 12 bilhões, um crescimento de 2,1% em relação a 2024, já descontada a inflação. Dessa movimentação, quase 75% estão concentrados nos setores de Alimentação (44,93%) e Transporte de Passageiros (27,54%). Já Hospedagem (10,65%) e Lazer e Cultura (9,2%) representam quase 20% do total, enquanto os setores restantes ficam com 7,07%.
Além disso, o evento deve gerar cerca de 32,6 mil empregos temporários, principalmente nos setores de alimentação e turismo. Se há um momento do ano em que a economia brasileira recebe um impulso significativo, é durante o Carnaval. A festa impacta diretamente o turismo, a arrecadação de impostos e a geração de empregos, sobretudo nos setores de serviços. E, mais do que nunca, esse impacto não se restringe ao eixo Rio-São Paulo, mas se espalha por todo o país.
O efeito do Carnaval vai além dos dias de festa, pois os impactos econômicos começam antes, com a preparação do evento, e continuam depois, com os efeitos indiretos no turismo e no comércio. A economia informal também ganha força nesse período. Pequenos comerciantes, ambulantes, catadores de recicláveis e artesãos aproveitam o fluxo de foliões para impulsionar sua renda, sendo este um período estratégico para a recuperação financeira de muitas famílias. Além disso, há uma grande geração de empregos temporários nos setores impactados.
Relevância econômica na Paraíba
O Folia de Rua, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de João Pessoa, completa 37 anos em 2025. O evento movimenta a economia local, gerando empregos e atraindo turistas. Em 2024, o Carnaval da cidade recebeu mais de 1 milhão de visitantes, com um impacto econômico estimado em R$ 150 milhões. A expectativa é que, com o apoio do Governo Federal, o evento possa ampliar sua estrutura e atrair ainda mais turistas, consolidando João Pessoa como um dos principais destinos carnavalescos do Nordeste.
Campina Grande tem uma cultura muito forte no Carnaval, com o Carnaval da Paz, que atrai milhares de pessoas para eventos religiosos e programações alternativas à folia tradicional. Grandes eventos, como a Consciência Cristã e encontros promovidos pela Igreja Católica, são responsáveis por trazer fiéis de diversas regiões do Brasil para a cidade. Esse modelo de festividade não apenas movimenta a economia local, por meio da hospedagem e da alimentação, mas também consolida Campina Grande como um destino que oferece opções diversificadas para todos os públicos durante o período carnavalesco.
O Carnaval impacta a economia da Paraíba de diversas formas, gerando empregos, movimentando o turismo e impulsionando setores como hotelaria, gastronomia, comércio e serviços. O estado deve experimentar um dos carnavais mais movimentados dos últimos anos, com uma ocupação hoteleira média de 87,8%, reforçando a Paraíba como um destino turístico de alto potencial, não apenas durante as prévias de Carnaval, mas também ao longo dos dias de folia.
João Pessoa, por exemplo, atinge 90% de ocupação, com muitos hotéis operando com capacidade máxima. Lucena já atingiu 100%, enquanto outras cidades com festas mais tranquilas, como Areia e Bananeiras, registram 80% e 95% de ocupação, respectivamente. O município de Cajazeiras, que recebe grandes atrações nacionais, já está com 100% de ocupação durante o show do DJ Alok e 80% na média geral.
Campina Grande, com sua programação religiosa, segue com 85% de ocupação. Em Araruna, conhecida como a Capital Paraibana do Turismo de Aventura, os campings também estão lotados, além da boa taxa de ocupação em hotéis e pousadas, atingindo 80% de ocupação para aqueles que buscam um contato mais próximo com a natureza. O levantamento foi realizado pelo governo do Estado em parceria com a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Secretarias Municipais de Turismo, o Sindicato das Empresas de Hospedagem de Campina Grande e a Associação de Turismo Rural e Cultural de Areia (Atura).
Mesmo para quem não gosta, os números falam por si
Eu não preciso gostar do Carnaval para reconhecer sua importância econômica. Pode não ser meu tipo de evento, mas a análise objetiva dos dados mostra que a festa não é apenas um momento de lazer para foliões – é um impulsionador econômico fundamental. O Carnaval move a economia e beneficia milhões de brasileiros. E questionar isso é ignorar os números – algo que eu jamais faria.
Então, mesmo para quem prefere a tranquilidade ao agito carnavalesco, é inegável que o Carnaval é um motor econômico vital para o Brasil. Ignorar sua importância seria desconsiderar dados concretos que demonstram sua contribuição significativa para diversos setores da economia. Os governos locais que souberem se preparar para essa demanda turística não apenas colherão os benefícios imediatos da festa, mas também poderão alavancar o turismo para além do Carnaval, promovendo destinos e experiências que impulsionem o crescimento econômico ao longo do ano.
Conheça o autor: Cássio dos Anjos é doutorando em Economia Aplicada pelo PPGE/UFPB, possui mestrado em Matemática Pura e especialização em Educação Financeira, ambos pela Universidade Federal da Paraíba, além de licenciatura em Matemática pela Universidade de Pernambuco. É professor efetivo no Governo do Estado da Paraíba e na Prefeitura Municipal de João Pessoa, pesquisador do Laboratório de Inteligência Artificial e Macroeconomia Computacional (LABIMEC/UFPB) e Assessor Pedagógico da Sicredi Evolução. Com mais de uma década de experiência, trabalha com Tecnologia no Ensino de Matemática, Educação Financeira e Aprendizagem Baseada em Projetos. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Métodos Quantitativos Aplicados, e na área de Matemática, com ênfase em Álgebra. Atualmente, está se especializando em Economia do Setor Público e dos Recursos Naturais, utilizando ferramentas como Modelos de Equilíbrio Geral Computável e Econometria de Séries Temporais.