Tem Tem do Curau: pai e filhas transformam história de trabalho em legado empresarial no Sertão

Cristiane e Lillian Barros aprenderam com o pai, Seu Curau, que o sucesso de um negócio se constrói com trabalho, honestidade e amor pelo cliente

Por Michelle Farias-Pauta Real

Seu Curau, fundador da Tem Tem do Curau e pai orgulhoso e Cristiane e Lillian (Foto: Pauta Real)

Criadas entre prateleiras e balcões, Cristiane Barros e Lillian Barros aprenderam, pelo exemplo do pai, que o sucesso de um negócio se constrói com dedicação, credibilidade e afeto, valores que mantêm viva, geração após geração, a história da Tem Tem do Curau, tradicional loja no município de São Bento. O fundador do negócio, que está há 45 anos no mercado, é Benedito Barros de Araújo, conhecido por Seu Curau, um pai orgulhoso e empresário admirado.

Aos 84 anos, o amor pelo comércio continua ativo e faz com que ele, sempre que está na cidade, acorde cedo, vá até a loja e receba os clientes com um largo sorriso e a expressão que cativa: seja bem vindo ao Tem Tem do Curau. O comércio emprega 25 funcionários e outros oito na fábrica. São duas lojas, sendo uma em São Bento e outra no município de Santa Cruz do Capibaribe, no estado de Pernambuco. Redes e artigos para cama, mesa e banho são o carro chefe da empresa, e o slogan, “De tudo tem”, não é à toa, fazendo a empresa referência na cidade na venda das peças. 

Seu Curau conta com orgulho que a próspera empresa foi iniciada a partir de 50 caldeirões de alumínio, que eram vendidos a moradores na cidade através do crediário. “Era rua acima, rua abaixo, empurrando um carrinho”, relembra o empresário. Antes de empreender, ele serviu ao Exército e foi motorista de táxi. 

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Com a boa receptividade do crediário, ele decidiu apostar na venda de fios de acabamento, dessa forma ingressando na área têxtil. O crediário se tornou uma lojinha de alumínios que passou a ser administrada pela esposa, enquanto Seu Curau passou a se dedicar integralmente ao ramo têxtil. 

“Eu sou uma pessoa muito sofrida e quando alguém me atendia bem eu achava tão bom. Naquela época, a minha situação era muito difícil”, afirmou o fundador, que firmou um compromisso sólido com o atendimento de excelência, que sempre foi a sua marca registrada e um dos pilares para consolidar a empresa no mercado. 

Atualmente Cristiane e Lilian Barros, filhas de Seu Curau, dão continuidade ao legado familiar e reforçam os valores que sempre pautaram a trajetória da empresa. “O principal ensinamento sempre foi tratar bem os clientes, os funcionários e primar pela honestidade”, relembrou o fundador da empresa ao falar sobre o processo de preparação para repassar o comando do negócio para as filhas. 

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As empresárias cresceram acompanhando de perto o trabalho do pai, que se tornou a maior inspiração para elas. “Nós éramos criancinhas e todo Natal a gente se vestia de palhaço para andar em cima de uma caminhonete bem velhinha que ele tinha, mas era o maior sucesso. As crianças já esperavam esse dia, de chegar o Natal e ver painho de Papai Noel e a gente de palhaço, distribuindo bombom. Já era uma festa na cidade”, relembra Cristiane. A história da loja se entrelaça com a vida de Lilian Barros, que nasceu e cresceu na loja do pai. Com a mãe trabalhando fora, ela e a irmã passavam grande parte do dia na Tem Tem do Curau. Mas o que começou como uma brincadeira para as duas irmãs, aos poucos foi se tornando algo sério e, cada dia mais comprometidas com os negócios das famílias, Lilian e Cristiane passaram a assumir funções específicas na empresa. Enquanto Cristiane mostrou aptidão para as vendas e para administrativa, Lillian desenvolveu o lado criativo.  Ela é responsável por desenvolver coleções de redes, desenhar roupas e é a criadora da rede edredom, peça que é sucesso de vendas em todo o estado. Atualmente ela atua principalmente na Tem Tem Biju, com a venda de tecidos. “Eu tenho muito orgulho de ter vivido essas fases, de ter nascido e me criado aqui dentro e de tudo que aprendi com meu pai, um homem honesto, íntegro e que tem credibilidade na cidade, por honrar todos esses princípios”, disse Lillian. 
O mesmo sentimento é compartilhado por Cristiane, que enaltece a trajetória do pai e o seu legado. “Foi uma cartilha muito bem dada, porque a gente herdou isso. A gente não faz por obrigação. Nossa meta maior é tratar o cliente. Quando eu faço as reuniões com os funcionários eu sempre digo: eu quero que vocês recebam o cliente bem. A gente herdou isso de painho e preza muito pela honestidade, transparência, para o cliente gostar da compra que fez e voltar”, destacou Cristiane.   

À frente dos negócios, Cristiane e Lillian projetam abrir novas lojas e expandir o espaço físico da matriz. No último mês de julho o grupo inaugurou a Tem Tem Conceito, um espaço exclusivo, que foi criado pensando na elegância, conforto e sofisticação, oferecendo peças em cama, mesa e banho com alto padrão de qualidade.

“Cada dia eu sou mais feliz com as filhas que eu tenho. Mas para elas serem o que são hoje, desde os 12 anos que elas me acompanham e lá no comércio eu ensino: primeiro, tratar bem o cliente é o principal; segundo, tratar bem, como um filho e irmão, os funcionários e ser honesto. Confio muito nelas duas e graças a Deus sou um homem feliz”, conclui Seu Curau. 

Sucessão empresarial familiar ainda é desafio no Brasil e exige planejamento para manter negócios vivos Apesar de a maioria das empresas brasileiras ter origem familiar, apenas 70% chegam à segunda geração, 10% à terceira e somente 3% conseguem alcançar a quarta geração, de acordo com a analista do Sebrae/PB, Rosário Brito. O dado revela um cenário preocupante e reforça a importância de preparar herdeiros e planejar a transição de comando. Entre os fatores que comprometem o processo estão conflitos internos, diferenças de visão de gestão, apego excessivo a funcionários antigos e ausência de um plano sucessório estruturado. De acordo com a analista, é fundamental que a sucessão vá além da simples transferência de bens. “Estamos falando de preparar o sucessor para assumir responsabilidades, entender a cultura da empresa e ter competência para inovar sem perder a essência do negócio”, explica. Ela destaca que a transição pode ocorrer por aposentadoria, falecimento ou afastamento do fundador, e que, em todos os casos, a preparação antecipada minimiza riscos. No passado, muitos herdeiros aprendiam a gestão na prática, acompanhando pais e mães no dia a dia da empresa. Hoje, a recomendação é que essa experiência seja aliada à formação acadêmica e a vivências externas, permitindo que o sucessor adquira visão de mercado e capacidade de liderança. Entre as boas práticas apontadas estão elaborar um planejamento sucessório, envolver toda a família nas discussões, analisar a aptidão dos herdeiros, criar um conselho de administração e delegar responsabilidades antes de transferir o comando.
Para Rosário Brito, o recado é claro: “Planejar a sucessão é garantir que o legado construído com tanto esforço não se perca. É preparar pessoas e processos para que a empresa continue competitiva por muitas gerações”.